sábado, 15 de setembro de 2007






















a teus pés deixei minhas dores
como fazem todos os pecadores
orei, chorei, roguei, me arrependi
sem entender o porque, sofri
quanto de meu tempo vaguei
pensando em ti, acreditando
nas orações que ensinaram-me
ledo engano, e em meu martírio
sua cruz estilizada, eu me feria
eu sempre me machucava
até por fim compreender
que a crucificada fui eu
apenas eu
em meu calvário de dúvidas.

(para Ana Cristina Cesar)

sábado, 1 de setembro de 2007























Nunca terei Baudelaire
Preso entre meus quadris
Mesmo assim o amo
Com extrema violência
Um querer bruto e evidente
Que faz vibrar minhas carnes
Minhas palavras
Faz cintilar minha poesia
Num legítimo transbordar
De emoções incontidas
Preenchem-me as ilusões
E não há como me esquivar
Contento-me com amores utópicos
Pois os reais não me saciam
Acabam logo, derretem
Enquanto os imperfeitos
Continuam intactos
Em meus devaneios.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ampulheta cega























Grãos na cintura passam cálidos
Ah, hora, é fissura no furo da proa
Idolatra Argos e hinos vãos, entoa
Crê, mesmo tendo olhos inválidos

Nunca lambeste o tempo em estado,
Ah, areia, é volátil, pelo centro escoa
Impunemente, a pária lasciva ecoa,
Como milhões de pingos sem reinado,

À primeira vista se apresenta formosa,
Naquela luta do não esvair-se pela greta,
Ao fazer-se livre, alforriada, jaz saudosa

Cada minuto manco traz uma muleta,
A jura presa em promessa duvidosa
Que fere, mata nessa imutável roleta

quarta-feira, 1 de agosto de 2007























Depois que parti de mim
Escrevo cartas intensas
Sem fim
Rabiscos tortos
Inúteis
E essa casca
Convalescente
Insiste em gritar,
Chorar, sofrer,
Clamar pelo que já fui
Mas esse que observa
Já não quer mais voltar
Busca ainda seu rumo
Está preso a esse tema
Fatídico e ignóbil
Como as canções repetidas
Em semi tom
Não mais
Não mais.
a vida me prende em laços asfixiantes
não engana-me com sua primaveril
só me rasga em seu leito de inverno
com a evidente certeza
que me entregarei
que me entregarei
aos seus beijos que cheiram flores
e causam-me estranheza
transfiguram o medo
a angústia lasciva
o fluxo e refluxo
de uma atenção entregue
à sebe do jardim.

domingo, 15 de julho de 2007

Alice despedaçada






















sonhei com outro presente para mim
que não incluísse bebedeira
e filhos bastardos para criar

as meias arrastão e a jogatina
acompanhadas de bebida forte
abrandavam devaneios

mas minha perdição
era a fumaça do cigarro
que fazia voar

veio cair em minha mão nada mais
que um ás e uma rainha de copas
olhava para as expressões pacíficas
de outros jogadores
naquele jogo a verdade
era o que menos importava

sem xícaras de chá ou botões
na lapela do Chapeleiro Louco
ou qualquer outra coisa
que viesse da terra dos espelhos
eu era igual a todas as outras

não fosse aquela rainha de copas
mal me lembraria de quem fui.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

o amor é beijo
























de violoncelista
e uma lutadora
embates de claves
e socos
ambos fogem
para cordas
esse talho e ranço
é o pouco do caldo
que me sobra
dessa dobra da língua

verborragias na hemorragia
de sentimento falham-te
como que ora
e não tem sede benta

entendas de uma vez
verbos não me compram
sou escolada em retórica
e paranóica de ardores

iguaria do falo
não é a palavra
que se escuta
é sim a constatação

gozo meu não é verso
é sim dissertação.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

cimo























sou querer empírico
responsabilizada de ser
resvalando-me na inércia
de não ser

tento abrir as portas
que me afastam de mim
mesmo condenada
à liberdade insólita
do não poder
cimo

épica e lenta descoberta
corrompida pelo ego
qual Sísifo interno-me
eterna jornada
no subir e descer
da pedra

sábado, 5 de maio de 2007

parlatório




são em teu falo
que minhas dores
calam-se,

tanto na palavra
como na carne.

terça-feira, 1 de maio de 2007


















chama,
debulhe-me entre dedos
em devoção

passeia nas contas
de meu rosário torto
aprecie minha tortura
de sobreviver
aos desejos seus

chama,
o ardor de meu nome
em aflição

degusta cada sílaba
que em sua boca
o vocativo arde
derrete, queima e ecoa
nos meus sentidos

derrota-me

chama,
queime este pavio
em oração

vibra alheio à catástrofe
que me espera
sem supor o intento
que trago fumaça
em meu peito.

domingo, 1 de abril de 2007




















agonia de amá-lo desconhecido
e ao mesmo odiar-te
talvez por ter-te
em andor idílico
mistificado em idolatrias vãs
quase ou tão absurdas quanto

ouvir-te o verbo mudo
e palavras falsas tatuadas
no dorso de monumento inexistente

cultuar-te oco
um objeto retratado
sem saber-te conteúdo.

quinta-feira, 1 de março de 2007



















Cabe-me um sonho vão
E a crença plena de que nada vingará
O esboço discreto e perfeito
Do fracasso.

Fadiga-me a vida
Dispersa-me o cativeiro
Tão tênue, tão nocivo
Que quase não tem sentido.

Falso, reles, louco
Cabe na desventura do tormento
Vive na lamúria do pouco
Seca na indignação do nada.

Cabe-me ainda um sonho vão
Que permanece sereno
Sem pressa de acontecer
Sem medo de perecer.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007











em tempos de não fé
rezar

rezar agora
por agora estar sozinho
e desesperado
vivendo por si
sem dolo
ou algo encantador

saudade dos tempos
do não amar

amar em pensamento
sustenido
suspenso
em dó

não se preocupe em correr
contra o tempo
nem sabe
para onde ir.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
















ai que a vida é um regalo
vazio de pouco visgo
muito talo
ai que de doce
minguado
bagaço é o que resta
verde pastosa
espera-se muito
garapa azeda
gosto amargo
que embriaga
como cachaça
e enverga o prumo
tal que eu sem rumo
vou ao encontro do nada
do meu rasgo impune
que só me faz o que sou
cana-de-açúcar
que canaliza o verbo
e açucara as palavras
para apenas dizer
que sobra
a amônia e do azoto
a mim o arroto
dentro das horas tardias.